O tempo, o meio e a mensagem. Uma lição de comunicação baseada no discurso do presidente

Ontem, 24 de março  de 2020 tivemos mais um capítulo da mais recente novela brasileira por mim intitulada: “O Covid 19 e o capitalismo selvagem.”

 Antes de prosseguir, quero deixar bem claro que não dou a mínima se sua visão sócio política é de centro, direita, esquerda, se você é apoiador do Bolsonaro, do Lula, do Mickey, Capitão Caverna ou o que quer que seja. Isso não me interessa e não estou fazendo este artigo pensando em viés politico algum. Quero somente analisar o contexto e o movimento sobre a ótica de como – em meu entender – poderia ser diferente, em juízo de valor e maximização do resultado, a ação do Presidente, levando em consideração três pilares da comunicação que muitas vezes passam desapercebido pela maioria dos líderes.

Entendo que de tudo se pode tirar uma lição, e quero usar o recentemente ocorrido para discutirmos, aprendermos e aprimorarmos uma vertente crucial da liderança e da comunicação nos dias de hoje, seja porque se comunicar ficou mais fácil com a pulverização de canais,  seja porque a comunicação em um mundo repleto de informação ganha ainda mais valor qualitativo para se diferenciar em meio ao imenso oceano de opiniões vazias, mensagens sem fundamentação e ações impensadas.

Uma comunicação realmente eficaz, principalmente institucional, antes de mais nada deve levar em conta três aspectos primordiais que, quando bem planejados, além de maximizar seu resultado positivo, fazem com que o entendimento e controle do cenário em torno da empresa se torne fator positivo para a alavancagem de negócios. Seja pelo ganho de valor consciente e inconsciente da marca, por adesão de parcela maior de público, ou diminuição da capacidade de crítica e consequentemente levantamento de barreiras importantes contra concorrentes.

Estou falando de: Tempo, Meio e Mensagem.

Por Tempo, entende-se tudo o que podemos quantificar em termos de momento e volume de comunicação. Ou seja, se é o momento de falar algo, se preciso falar, se devo ser o primeiro ou aguardar desdobramentos, em qual volume devo falar (repetições necessárias no caso da mensagem publicitária) por quanto tempo devo sustentar a mensagem e assim por diante.

Por Meio, entende-se a forma como vou fazer com que a mensagem seja distribuída. Ou seja, como vou fazer com que o que precisa ser dito, alcance meu público da melhor maneira possível. Envolve escolher o veículo de comunicação mais adequado para entregar / impactar a mensagem, as múltiplas formas de fazê-lo (no caso da publicidade o crossmedia para impactar em diferentes momentos o seu público) e com isso, principalmente por meio da repetição, maximizar a retenção da mensagem na mente do seu público alvo para que se possa construir o referencial mensal de correlação com o objetivo desejado. 

Finalmente, por Mensagem entende-se aquilo que preciso passar em termos de comunicação visual, textual e sonora, envolvendo os aspectos simbólicos e simbióticos de construção da comunicação. Em outras palavras, aquilo que quero dizer, o conteúdo que quero expor,  seja para direcionar minha audiência para compreensão do meu ponto de vista, seja para motivação da mesma para a ação dentro da minha expectativa de resultado.

Voltando ao presidente e sua ação de comunicação ontem, pergunto: A ação do mesmo foi acertada sobre a ótica de Tempo, Meio e Mensagem?

Vou colocar minha opinião de estrategista de marketing e quero saber a sua nos comentários abaixo. Lembrando, não estou analisando o governo em si, a figura do presidente ou qualquer viés ideológico político, ok? Apenas a ação em si e a forma de agir do mesmo sobre a ótica de sua linha de comunicação, culminando com o discurso de ontem.

Em minha humilde opinião, o presidente ontem errou em dois dos três aspectos. Vejo que ele errou no tempo, e na forma de construção da mensagem. 

Sobre o aspecto de tempo, achei sinceramente prematura a abordagem de tema tão delicado para grande parte da população. Não que ele não tivesse que se preocupar com o impacto econômico da crise do Covid 19, é consenso que a mesma será devastadora e que o governo deve – sim – tomar medidas para minimizá-la o quanto antes. Mas como a mensagem é realmente impactante, e foi tratada de forma desleixada, o impacto de tão brevemente abordar o tema – ao meu ver – só maximizou o impacto negativo da ação.

Acho que cabe aqui um parêntese para expor uma correlação de valor entre os três pilares. Se você não tiver muito tempo para se dedicar ao planejamento das três vertentes, dedique mais atenção a mensagem. Dos três pilares, a mensagem, a forma como falar, é a mais importante! Em seguida, pense no meio, e só depois pense no tempo.

 Dos três pilares, a mensagem (o conteúdo) é a mais importante!

Voltando ao discurso… sabemos que o presidente tem um problema com o tempo na sua linha de comunicação. É corriqueiro que o mesmo queira sempre se expressar, sempre de forma a expor sua opinião, muitas vezes antes mesmo de ouvir opiniões diversas e sem avaliar muito bem a necessidade de ser realmente necessário que ele fale. Fato que comprova isso, é a quantidade (já perdi a conta) de idas e vindas em seu discurso. Ao longo de seu mandato, não somente em ações tomadas, mas em posições expostas, o presidente e o governo já foi e voltou algumas vezes, se contradizendo e tendo que mudar de opinião.

Mudar de opinião não é e nem nunca será um problema, mas por trás de uma mudança constante de opinião, principalmente agindo de forma rápida, com certeza está uma falta de reflexão sobre o tema, e também sobre a necessidade real de se expressar naquele determinado momento. Muitas vezes tenho  a impressão de que o presidente tem a necessidade de ser o primeiro a falar… e aqui vai um recado aos líderes, nem sempre você deve ser o primeiro a falar. Nem sempre você precisa falar… principalmente se você não for especialista no tema, ou se o tema for complexo o suficiente para que tenha em mente um juízo de valor formado. Isso não é uma fraqueza. Ninguém domina todas as áreas do conhecimento, se você conhece alguém que acha que sabe sobre tudo, este na verdade é um tolo.

Sobre o Meio, entendo que não há muito o que ser dito, o presidente tem a sua disposição o que talvez seja o melhor meio de comunicação do país. Ele consegue parar todos os canais televisivos e de rádio, em momento simultâneo e utiliza-los para expor o conteúdo de sua mensagem. Não bastasse, a repercução, seja ela positiva ou negativa, proporciona uma repetição da mensagem que torna quase impossível alguém não ser impactado por ela.

Por fim, minha análise da mensagem…

Este talvez seja o ponto mais fraco da linha de comunicação adotada pelo governo. O presidente tem como padrão em suas mensagem o enfrentamento. Isso funciona em questões pontuais onde isso se faz realmente necessário, mas a política do enfrentamento pleno sempre vai fazer com que aquele que adota esta prática deslize na argumentação e gradualmente perca força no seu discurso.

Ninguém é sempre contrário a tudo e não é sempre que tudo e todos estão errados e só você certo. Um ponto de vista é apenas a vista de um ponto, e pode sim haver mais de uma verdade. O absolutismo é sempre muito delicado. Como uma vez pontuou o Dalai Lama, o mundo não é preto ou branco, ele é cinza!

Dito isso, existe formar diferentes de defender uma mesma opinião ou versão dos fatos, e ontem o presidente, adotou novamente sua linha de comunicação do enfrentamento da forma mais brutal possível, fazendo pouco caso de um problema que envolve a morte inevitável de inúmeras pessoas. Tratar um problema de saúde sério como o COVID 19 como uma “gripezinha” foi errado assim como é errado o que muitos estão fazendo em não dar o devido valor ao impacto econômico da paralização plena.

Se assessorasse o presidente, certamente não diria para o mesmo realizar a ação ontem. Não só por ter sido prematura, mas também porque adotou uma abordagem de desprezar o problema e a forma mundialmente definida pelos maiores especialistas de como resolver a questão sobre a ótica de saúde, assumindo uma posição de contraponto que neste momento não o favorece em nada.

Mas se ainda assim fosse inevitável realizar uma ação de comunicação, mudaria a mensagem. faria como muitos líderes vem fazendo e entendo que seja o melhor caminho atualmente. Demostraria preocupação e empatia com a questão de saúde, perdas em vidas que teremos, apresentaria tudo o que está sendo feito, pediria calma e por fim faria a exposição do impacto econômico, da preocupação em relação ao futuro e pediria, enfim a compreensão de todos de que é preciso agir para que o remédio não seja tão prejudicial quanto a doença.

Agindo assim, com certeza o impacto seria diferente, e o presidente sairia da ação de comunicação blindado – inclusive – para as críticas que virão quando a onde de desemprego vier, a recessão se aprofundar e a  crise sócio econômica atingir seu auge.

 

Bruno M. Ferreira – É formado em comunicação social e especialista em gestão de negócios e teria feito diferente do que o presidente fez… se é que isso importa.

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